Lembro-me do amanhecer daquele dia invernal. Diziam os antigos que se
tratava do inverno mais rigoroso, até então conhecido. O manto branco
cobria todas as paragens, roubando o verde das colinas, as flores dos
vales, e a presença vital e constante dos seres da floresta. O frio
cortante se traduzia em silêncio. Silêncio e sopros.
Para ajudar meus familiares levantei-me cedo, calcei as grossas botinas
de couro, procurei dentro da modesta casa tudo que me fosse proteger da
tempestade que se avizinhava. Levei comigo o machado, esperando que de
algum modo, fosse capaz de trazer a lenha que nesta época era tão
importante quanto a água, mantendo o fogo aceso, afastando-nos da morte
certa.
Rumo à imensidão murmurante, refleti sobre como tudo parecia congelado.
Não apenas a terra, é claro. Enquanto adentrava mais e mais por entre as
árvores desprovidas de folhas e cobertas de gelo, tinha a nítida
sensação de que também deixava para trás o tempo. Houvesse relógio,
estaria certo de que seus ponteiros não se moveriam.
Tomado por um súbito desejo, resolvi subir numa pequena elevação de
pedras, d'onde se poderia avistar toda a extensão deste lar ao qual eu e
os meus pertencíamos há muitas gerações.
Parado, em pé, sentindo o cheiro da neve, agucei meus ouvidos e pude
perceber um choro soluçante, no entanto quase contido. Virei-me em
direção da mata e pus-me a passos ligeiros para encontrar o que quer que
fosse que emitia aqueles sons capazes de estilhaçar minha alma pouco a
pouco.
Era uma mulher.
Meus olhos não queriam crer.
As lendas falavam sobre demônios da neve, que sob belas formas
espalhavam sua destruidora influência, transformando a natureza em
inferno gelado, roubando a vida dos homens. Porém, tudo o que eu podia
ver, diante de mim, era uma dama na neve.
De seus olhos amendoados e fechados, a cada lágrima, caía uma pérola
cristalina e fria sobre o chão... De seus suspiros vaporosos se formava
uma bruma que flutuava para cristalizar-se em gelo. Suas mãos cruzadas,
tão brancas, pareciam quase azuladas, e embora seus pálidos lábios e
traços se perdessem entre os cabelos descoloridos, era possível saber
que existia ali qualquer coisa de vida. Não a vida aquela à qual estamos
habituados; uma vida selvagem, profunda, banhada nas histórias de
deuses e de entidades tão antigas quanto nosso mundo. Fascinante e
aterrorizante.
Desprovido de qualquer reação que não esta, tive a ousadia de me
aproximar, tomando o cuidado de não assustar a dama na neve. Dobrei
levemente os joelhos, e acerquei-me de onde estava sentada, sobre a base
do que fora um robusto tronco noutros dias. Vestia-se como em seda
prateada, num desenho tão fino que me fez crer se tratar d'algum tipo de
realeza.
- Por que choras, dama na neve? - perguntei-lhe, com o gorro em mãos.
Só então pareceu notar minha presença.
Seus olhos cinzentos e radiantes eram envoltos em aquoso cristal, belo
como só as lágrimas de uma mulher podem ser; transtornantes, como só as
lágrimas de uma mulher podem ser.
- Choro porque não encontro repouso.
- O que fazes?
- Não o vês? - Ela estendeu o braço para o além.
- Por que o fazes?
- Faço-o sem escolha, assim sou.
- Como és?
- Fria.
Temendo ser afastado, ainda assim me pus mais perto, sem saber se seria
aceito ou atacado. As unhas em seus dedos finos assemelhavam-se em
aspecto a lâminas de gelo. Tentei ignorar a isto.
- Deixe ir o frio, encontre um modo de desligar-se desta sina.
- Você não o vê, porque és humano. - Enxugou o rosto com a delicadeza de
um anjo, a despeito de ser um demônio. - Vós tendes também seu trabalho
insuspeito... Sois calorosos. Irradiai ao vosso redor um algo, que é
tão palpável como os flocos da neve.
Os céus estremeceram e uma fina garoa branca e congelada iniciou a se
precipitar sobre nós. Abracei-me, sentindo o frio daquela manifestação, e
a temperatura baixa que decrescia a cada passo mais perto da dama na
neve.
- O que é este algo? - Quis atrevidamente saber.
- É tão claro. - Vi-a rir, os dentes de marfim se mostrando. - Sois carregados de humanidade.
- Humanidade? Mas a humanidade não é capaz de pintar os prados de branco... Nem de embelezar a terra com o encanto de estações.
- Oh, tolos... Desconhecei vossos poderes, é assim desde o princípio.
Seus olhos mantinham-se firmes e sem se desviarem de mim. Eu nada podia
fazer a não ser admirá-la intensamente. Se fosse verdade que os demônios
da neve roubavam a vida dos homens, não haveria explicação senão a de
que eram tão cativantes a ponto de nos entregarmos sem pestanejar a
estes riscos imprudentes.
Por fim parei a seus pés. Minha gana era tocá-la. Suspeitava que se
fizesse isso eu jamais voltaria a sentir minhas mãos, que minha pele
queimaria no ardor congelante. Entretanto, ela curvou-se em minha
direção.
- Diz-me tu, homem, o que quereis?
- Quero ajudar-te. Ouvi seu sussurro tão triste, e vim até aqui... Quereis minha vida? Entrego-na. Meu bem mais precioso.
- O que te importa se chorava?
- Não o sei. Só sei que desejava poder aquietar-lhe em meu seio, dar-lhe
a mão para que não ficasse tão só e desesperançada... Ofertar-lhe este
repouso cuja falta o pranto lhe fazia cair.
- Dar-me-ia teu bem mais precioso, tu o disseste?
- Sim. - Surpreendi-me ao concordar sem hesitação.
- Pois bem... Volte à tua casa, e na manhã do dia que virá, esperarei para tomá-lo.
Aquiesci.
Entretanto, ao colocar-me sobre as pernas, num segundo de distração ela
havia desaparecido. Nada entendi. Sem também sinal da neve que caía,
voltei à entrada da floresta, e ocupei-me de cortar as árvores e galhas,
tornando-as em lenha. O tempo voltara.
No caminho de volta, perguntava-me se teria alucinado?
Eu não podia ter certeza.
Àquela noite, enquanto o fogo crepitava na sala e eu dormia junto a ele,
jurei ter escutado entre as rajadas do tempestuoso vendaval, um choro
incessante. Meu peito aflito dizia-me "é real, é real". Revirava-me
entre sonhos, querendo entender por quais motivos chorariam os demônios?
E por que afinal seu lamento era tão impossível de ignorar?
Assim que o sol raiou, saí sem fazer barulho. Não queria acordar
ninguém, desconfiando de que uma despedida não me faria o bem. Se enfim
minha vida pudesse pôr fim àquele sofrimento, eu o faria, honrando minha
palavra, e impedindo que qualquer mal em represália pudesse recair
sobre meu povo.
Segui pela mesma trilha, atravessei com dificuldade os novos amontoados
brancos espalhados ao redor. A nevasca noturna tomara seu lugar sobre
nós, deixando-nos ainda mais preocupados com as semanas porvir. Se as
lágrimas da dama na neve provocavam este efeito, este era outro nobre
motivo para ajudá-la, pois desconfiava que alguns dias seriam o
suficiente para tornar-nos a todos em estátuas de gelo.
Cheguei à base de madeira, tentando enxergar a criatura.
Não havia qualquer indício de sua presença.
Circundei ao redor, tentando em vão descobrir onde estava.
De súbito, virei-me para dar com um amontoado de pérolas de cristal. E
do outro lado delas, elegantemente inclinada, vi-a de novo. Contudo, não
mais chorava.
- Chorastes novamente esta noite, eu ouvi! - Disse-lhe apressadamente.
- Temi que não viesse.
- Cá estou. Tomai minha vida, e porás fim à tua desventura.
- Oh, eu já a tomei.
- Já? - Apalpei meu peito, os olhos arregalados e curiosos.
- Teu "bem mais precioso". Tu já o deste para mim.
- Não o percebi... Então assim é a morte? - Inquiri de novo.
- Teu bem mais precioso, homem, não é esta forma vivente. Ele o jaz na
eternidade. É o teu coração. Tu o abristes para mim, ofertaste-me tua
compaixão, e provaste neste amanhecer o quão profunda é tua
generosidade.
- Não o entendo...
- Eu jamais esquecerei deste gesto. Agora posso finalmente repousar. E
como agradecimento, deixo-lhe minhas lágrimas, que são preciosas aos
olhos dos mortais.
Ela virou as costas para mim. Uma revoada de bruma fria tocou minha pele.
- Ver-te-ei de novo, dama na neve?
- Encontrar-me-á. Sim.
- Quando?
- Quando começar a esquecer-me de vosso presente, e vir cá noutro ano, temendo ter apenas sonhado com isto.
- Os demônios sonham?
- Todo o tempo. E de nossos sonhos nascem as sombras que fazem crescer a luz.
- Eu quero...
"Acompanhar-te", falei solitariamente para o nada.
Na noite reunidos ficamos em torno da caldeira borbulhante, em farto
alimento sendo preparado. No dia seguinte, e no outro, não mais sentimos
o frio... E ainda mais adiante, grama surgiu, folhas começaram a
renascer, e as lebres assustadas pularam para fora de suas tocas. Os
lobos se afastaram, os ursos acordaram, e as borboletas e pássaros
vieram alegrar nossa existência com o anúncio da primavera.
Assim passou o tempo. E agora fico eu à espera, melancólico e choroso,
de que encontre o frio que amenizará o desejo que queima minh'alma.
Anseio pelo que há de melhor na dama da neve, para que possa dar-lhe o
que de melhor há em mim. E sei, que em breve, quando o primeiro cristal
gelado tocar minhas mãos, eu desejarei que a dama na neve volte a
sonhar, outra vez, para mim.

